15/04/2013

Thatcher e Chávez: duas visões antagônicas

Margaret Thatcher foi uma espécie de ícone da direita mundial. Por isso mesmo os “jornalões” brasileiros estão “chorando” editorialmente o seu desaparecimento. Na medida inversa, esses mesmos veículos de comunicação demonstram certo alívio com o desaparecimento do presidente venezuelano Hugo Chávez, morto no dia 5 de março.

Thatcher é reverenciada pela mídia conservadora e monopolista por ter desmontado o Estado do Bem-estar Social, promovendo uma guerra sem quartel contra os sindicatos ingleses. É uma espécie de réquiem midiático de louvor à ex-primeira ministra, que não vem acompanhado da mínima análise crítica sobre a verdadeira herança deixada pela Dama de Ferro. Ou seria a Dama do Capital?

Se havia algo de que o povo inglês podia se orgulhar era a qualidade de seus serviços públicos, estatizados em boa medida para combater a influência da antiga União Soviética sobre a classe operária da Inglaterra. Thatcher, com sua política antissocial de Estado Mínimo, atacou o sistema público e gratuito de educação e saúde, fazendo com que estes serviços passassem a ser parcialmente privatizados, perdendo sua característica de universalidade. Temos visto grandes mobilizações estudantis na Inglaterra, exatamente por causa da herança da Dama de Ferro: mensalidades elevadíssimas nas universidades, enorme dívida acumulada pelas famílias, sem possibilidades de pagamento.

O crescimento do desemprego, a expansão da xenofobia – que atingiu sangue brasileiro, quando da execução criminosa do mineiro Jean Charles por policial britânico -, o envolvimento cada vez maior da Inglaterra em guerras, como Malvinas, Iraque, Afeganistão e Líbia, e as agressões, ainda informais, contra a Síria, tudo isto é herança de Margareth Thatcher.

Foi durante os governos da Dama de Ferro que se pôs em marcha a desregulamentação desenfreada na economia, cujos resultados podem ser verificados no setor bancário com numerosa falência de bancos, sempre socorridos pelo Estado. No campo dos transportes, a privatização das ferrovias inglesas, antes consideradas de excelência, levou ao sucateamento, ao endividamento público (o setor privado não investiu, o Estado bancou) e, por fim, como consequência desta trágica política, à multiplicação de acidentes por falhas no sistema.

No campo das ideias, Margaret Thatcher defendeu vivamente a manutenção do odioso regime do apartheid na África do Sul e chegou a chamar um gigante da História como Nelson Mandela de terrorista. Atuou à margem da legalidade britânica para reprimir a justa luta de independência do povo da Irlanda do Norte, militarizando a região, destruindo pontes e estradas, acumulando presos políticos nos cárceres ingleses. A eles negava até mesmo o direito de usarem suas próprias roupas. Por dignidade, estes prisioneiros, como Bob Sands, recusavam-se a usar roupas de prisioneiros comuns. Thatcher queria humilhá-los, como se conta no excelente filme “Mães em luta”, de Terry George.

Em contrapartida, os mesmos grandes veículos de comunicação que louvam o Estado Mínimo tentam, editorialmente, matar Hugo Chávez outra vez e sepultar seu legado. A razão é simples: enquanto Thatcher demoliu o Estado, Chávez mostrou que sem Estado os pobres não possuem direitos.

Sem reprimir nenhum setor da sociedade, sem ter hoje um único jornalista preso na Venezuela, o período do chavismo revelou-se de extremo exercício da democracia por parte do governo. Basta contar: em 14 anos realizaram-se 16 eleições, plebiscitos ou referendos, inclusive da própria Constituição. Destes 16 pleitos, Chávez venceu 15 e respeitou, democraticamente, o resultado do único pleito em que não havia sido vencedor. Neste domingo (14), ocorre a 17ª eleição em 14 anos, com forte possibilidade de continuidade do chavismo, que superou todos os tipos de hostilidades internas e externas, até mesmo um golpe de Estado contra o presidente Chávez, que voltou ao Palácio de Miraflores nos braços do povo, em mobilização corajosa e histórica que derrotou os golpistas.

Enquanto no sistema financeiro inglês e dos grandes centros capitalistas há uma crônica instabilidade em razão da desregulamentação iniciada na era Thatcher, no legado de Chávez encontra-se o Banco do Sul. Trata-se de uma instituição pública com a finalidade de financiar projetos produtivos, tornando viável escapar das armadilhas financeiras dos desacreditados Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, incapazes de preverem a crise, e, mesmo depois dela, insistirem em prescrever as mesmas políticas infrutíferas.

Também fazem parte do legado de Chávez duas conquistas, reconhecidas pela Unesco e Cepal: “Venezuela, território livre do analfabetismo” e “país menos desigual da América Latina”. Enquanto Thatcher demoliu o Estado do Bem Estar Social, Chávez edificou um sistema de proteção ao trabalho e ao trabalhador na pátria de Bolívar onde se paga o maior salário mínimo do continente e expandindo direitos sociais. Caminho inverso da “culta” Europa, onde, não raro, cidadãos suicidam-se, como na Espanha neoliberal, ao perderem direitos, como à moradia.

Thatcher e Chávez, duas visões opostas, antagônicas. A Venezuela passa a ser respeitada no mundo não mais por regalar aos países ricos a riqueza petroleira de seu povo, mas por conquistar a soberania nacional sobre o patrimônio do país. É respeitada por impulsionar a cooperação e a integração latino-americanas, com a instalação de projetos de saúde e educação que beneficiam não apenas a cidadãos venezuelanos, mas a outros cidadãos pobres da América Latina. Todo este respeito conquistado pela Venezuela Bolivariana foi com base na soberania popular, respaldo pelo voto dos cidadãos, sem que tenha invadido ou agredido um único país.

Exatamente o oposto das políticas operadas por Margareth Thatcher, que se associou a Ronald Reagan para agredir a Revolução Sandinista da Nicarágua, para hostilizar a Palestina e, também, para reprimir os sindicatos de trabalhadores ingleses. A herança de seu pensamento está aí a olhos vistos: desregulamentação, crise, desemprego, guerras.

O legado de Chávez também está aí visível: o Banco do Sul, a Unasul, a Celac, o fortalecimento do Mercosul, da industrialização da Venezuela, a soberania da receita petroleira e sua aplicação nos projetos sociais atendendo aos mais pobres. É evidente por que um é odiado pela grande mídia, enquanto a outra é por ela homenageada.

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